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Segunda, 18 Maio 2009 10:42

09-Estr_R._Branco_-_Cruz_do_Sul01EXPEDIÇÃO AO ACRE

Cruzeiro do Sul a Rio Branco no Acre por terra, para encontrar as palmeiras Wendlandiella e Prestoea.

É a última grande ligação rodoviária do pais, ligando uma região relativamente desenvolvida (Cruzeiro do Sul, localizada na fronteira com o Peru) com o resto do país. São cerca de 700 Km cortando o sentido dos rios; iniciada há mais de 20 anos, rasgando a floresta Amazônica de leste a oeste e transitável apenas de julho a setembro. Já conhecida do avião de muitas viagens anteriores, seu traçado quase reto coincide perfeitamente com a rota das aeronaves que ligam estas duas cidade. Em varias expedições anteriores ensaiamos essa aventura a partir dos dois extremos, coletando ao longo do traçado da estrada e às margens dos grandes rios que a cortam (Rios Juruá, Tarauacá, Purus e Yaco), mas o máximo que conseguimos avançar foi 180 km em cada uma das pontas.

A cidade de Cruzeiro do Sul é ligada com o resto do país, além do avião, pelos rio Juruá, que por sua vez deságua no Rio Solimões para chegar a Manaus, de onde chega o combustível e todos os suprimentos mais pesados, numa viagem que pode durar 60 dias.

Iniciamos a viagem em Cruzeiro do Sul com veiculo 4x4, preparado para irmos coletando e fotografando ao longo do trajeto da estrada e em pequenas incursões rios adentro sempre que interessantes. Logo após a travessia do rio Juruá, a primeira grande surpresa uma população de Aiphanes ulei, magnífica palmeira de menos de 70 cm de altura que nunca havíamos visto e que sua ocorrência era citada apenas para a região fronteiriça com o Peru na serra do divisor (foto 01); neste mesmo local ainda encontramos mais 7 espécies de palmeiras já conhecidas, além de Besleria aggregata, uma magnífica herbácea da família Gesneriaceae de grande potencial ornamental (foto 02).

Nosso próximo destino: Rio Gregório, um afluente do rio Juruá; após arrumar uma pequena embarcação iniciamos a descida do rio visando encontrar a palmeira mais procurada da viagem - Prestoea schultziana, coletada ali há alguns anos antes pelos botânicos do INPA de Rio Branco, porém sem uma localização precisa. Ao longo do rio ainda tivemos a oportunidade de presenciar a retirada extrativista das folhas de outra palmeira Lepidocaryum tênue (buritizinho), utilizada na região para cobrir casas (foto 03), mas nada da palmeira que procurávamos. Não havia coordenadas registrada na coleta anterior e isto dificultava nossa busca, até que finalmente a avistamos no alto do barranco ao longo do rio: belíssima palmeirinha de tronco simples de menos de 2,50 m de altura e várias com frutos maduros vermelhos (foto 04 e 05). Fotos feitas, dados levantados, material botânico e frutos coletados, primeira missão cumprida. Seguindo agora em direção à cidade de Tarauacá, ainda tivemos a oportunidade de ver um população da palmeira cocão (Attalea tessmanni), até então só vista em lugares remotos do estado. Finalmente Tarauacá, cidade a 250 km do nosso ponto de partida e a triste noticia: teríamos que desistir porque a estrada acabara de ser fechada por motivo do inicio do período chuvoso na região. Para diminuir a sensação de frustração que envolveu todos os expedicionários, resolvemos fazer uma pequena incursão pelo Rio Tarauacá; subindo o rio logo em suas margens sobressaiam altaneiras as embiriteiras (Pseudobombax munguba) com seus lindos frutos vermelhos, árvore típica das margens de alguns rios amazônicos (foto 06).


01-Aiphanes_ullei01
Foto 01 - Aiphanes ulei, uma palmeirinha acaule de menos de 70 cm de altura e muito rara, encontrada nas matas ao longo da estrada Cruzeiro do Sul/Rio Branco no Acre.

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Foto 02 - Besleria aggregata, herbácea muito ornamental da família gesneriácea, encontrada no subosque das matas de terra firme da região de Tarauacá-AC.

03-Lepidocaryum_tenue_Iquitos04

Fotos 03 - Extrativismo das folhas do buritizinho (Lepidocaryum tenue) muito utilizadas na região do rio Juruá, no estado do Acre, para cobrir casas e barracões.

 

04-Rio_Gregrio_-_AC_Prestoea01

Foto 04 - Equipe participante da expedição em frente à palmeira rara Prestoea schultziana, encontrada na região de Tarauacá-AC, destacando-se no grupo, da esquerda para a direita, em primeiro lugar Dr. Evandro Ferreira do INPA, com Harri Lorenzi ao centro.

 

05-Prestoea_schultziana04

Foto 05 - Infrutescência da palmeira Prestoea schultziana com frutos maduros, encontrada ao longo da estrada Cruzeiro do Sul/Rio Branco no estado do Acre.

Avançando mata adentro em vários pontos ao longo do rio, pudemos ver a palmeira Socratea salazari muito rara e belíssima e um maracujá de ramos lenhosos Passiflora spinosa (foto 07).

Após o retorno a Cruzeiro do Sul e algumas coletas por terra na região, decidimos voltar de avião para Rio Branco e fazer o sentido contrário pela mesma rodovia que já é asfaltada até Serra Madureira e tentar seguir até a região onde poderíamos encontrar nossa segunda palmeira procurada Wendlandiela gracilis entre os km 40 e 50 após o Rio Purus. Veículo traçado e preparado para enfrentar o caminho, seguimos viagem; logo no inicio um mau presságio todas as máquinas e caminhões envolvidos na construção da estrada estavam parados e encalhados em vários pontos ao longo da estrada, mas como não havia chovido nos dois dias anteriores, fomos autorizados a seguir viagem. Já na travessia da balsa do Rio Purus, ao saberem de nossa missão, fomos logo alertados para não adentrar na mata próxima do rio porque uma sucuri gigante havia acabado de engolir um peão da obra na vista de todos e ninguém pode socorrê-lo, fato este já ocorrido outras vezes no local. Mas ainda tínhamos muitos km de estrada incerta para percorrê-la até chegarmos ao destino; tempo aparentemente firme, finalmente chegamos; mais que depressa iniciamos as buscas mata adentro para concluir tudo e sair de lá antes de uma nova chuva. Em poucas horas de busca finalmente a encontramos uma pequena palmeira cespitosa de menos de 2 m de altura que, à primeira vista se parecia às espécies de palmeiras chamaedóreas exóticas que se cultiva em locais sombreados nos jardins de São Paulo. Infelizmente estava estéril, mas assim mesmo a coletamos, fotografamos e medimos seguindo a mesma rotina de sempre (foto 08).

De volta a estrada a aventura começa muitos quilômetros daí a chuva havia começado; o solo da região é constituído por uma argila denominada de tabatinga, que quando molhada fica mais escorregadia que gelo; veiculo traçado e acorrentado não parava no leito da estrada; foram várias horas para avançar cerca de 40 km de estrada. Não há pedras ou rochas em todo o estado do Acre; a pavimentação asfáltica aqui é muito difícil e cara porque a brita usada tem que vir de Rondônia a quase 1.000 km de distância (foto 09).

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Foto 06 - Exemplar adulto de embirité (Pseudobombax munguba), árvore típica das margens do rio Tarauacá no Acre, destacando-se seus frutos grandes vermelhos.


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Foto 07 - Passiflora spinosa, uma espécie de maracujá de ramos lenhosos com espinhos encontrada nas matas de terra firme ao longo do rio Tarauacá.

 

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Foto 08 - Exemplar adulto de Wendlandiela gracilis, uma palmeirinha cespitosa de menos de 2 m de altura, de grande potencial paisagístico para lugares sombreados; também encontrada nas matas ao longo da estrada Rio Branco/Cruzeiro do Sul-AC.

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Foto 09 - Vista da estrada Rio Branco/Cruzeiro do Sul-AC, dois dias após uma chuva. Apesar do sol intenso, ainda estava em condições limitadas de tráfego; imagine-a logo após uma chuva, que foi o que a encontramos.



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